- Mesmo que você não goste de comemorar seu aniversário, o Norman e a Lilá compraram um bolo. Eles tão na cozinha. Vamos?
Caleb ria de alguma coisa no celular. Já faz alguns dias que está viciado naquela coisa.
- Caleb? Tá me escutando? - chamei-o.
Nada de novo. Ótimo. Voltei para cozinha me perguntando o que ele via de tão engraçado num celular.
- Ele não vai vir. Eu poderia dizer que vocês se esforçaram para nada e desperdiçaram tempo, mas não foi vocês que fizeram o bolo então... - dei de ombros.
- Eu não irei deixar esse bolo ir pro lixo. Ao ataque!
Ele e Norman pegaram colheres e, realmente, começaram a atacar o bolo. Selvagens. Eles se tornaram minha família. Uma família super estranha.
Henry era negro com cabelo bem cortado e olhos esverdeados. Muito diferente de sua recente esposa, Lilá. Aos trinta e três anos parecia uma adolescente. A pele branca como a neve dela fazia uma combinação perfeita com a de Henry. Sorri internamente. Norman foi um milagre na vida dos dois. Lilá não podia ter filhos e quando os pais de Norman morreram ela o adotou. Não foi difícil para ele se acostumar com a nossa vida bizarra pois seus pais biológicos também eram caçadores. O relacionamento dos três era incrível. Henry e Lilá o tratavam como se fosse realmente deles. E os dois faziam com que o Instituto fosse um lar de verdade. Não uma igreja sagrada.
Suspirei e também comecei a "atacar" o bolo. Norman já estava lambuzado de calda de chocolate.
Algum tempo depois Caleb apareceu na cozinha com uma mochila nas costas. Estava com as roupas de sempre. Camiseta de algodão preta, jeans da mesma cor e botas. Eu era a única caçadora que não se vestia de preto durante o dia. Não era algo que chamava a minha atenção.
- Onde você vai? - perguntei.
- Ah... - ele hesitou. - Vou ver meu avô.
Assenti. Estava óbvio que ele não iria visitar Tom.
- E se acontecer alguma coisa? - perguntei.
- Você é o forte o bastante para ir sozinha.
Mas é claro que sou. Revirei os olhos.
- E o Henry pode ir com você - Lilá opinou.
Ajudou muita coisa. Há algum tempo eu venho sentindo um ciúme incontrolável por ele. Caleb sempre me contava tudo de sua vida, mas depois que passou um dia na casa do avô voltou completamente diferente para casa. De madrugada, eu escutava risadas. Ele ficava horas e horas falando ao celular que comprara.
Vocês são só amigos, Milah. Era o que eu repetia centenas de vezes na minha cabeça. Eu nunca pensei que poderia realmente gostar de alguém. E nunca pensei que esse alguém seria meu melhor amigo.
- Eu já comi demais desse bolo. Vou ficar na biblioteca um pouco. - saí apressada.
Que droga. Eu não havia comido muito e, provavelmente, Lilá logo apareceria na biblioteca me perguntando o que tinha acontecido. Ela era ótima para decifrar as pessoas. Só que não tão boa em guardar segredos.
Fiquei passeando pela biblioteca enorme. Havia livros e livros que eu nunca chegaria a ler. Caçadores não são um exemplo de vida longa. Muitos morrem em combate. Seria uma honra para mim saber que morri salvando vidas. Como meus pais morreram.
Aos doze anos, quando cheguei no Instituto, os quartos estavam lotados. Estava havendo uma crise. Londres era o local preferido para os demônios "fazerem um lanchinho". Eu morava no interior, mas já era treinada para ser uma Caçadora. Foi difícil achar quarto para mim e para os meus pais, então me colocaram num quarto com outras crianças. Foi quando conheci Caleb. Ele era um medroso.
Ainda me lembro de quando eu e os outros o assustamos de madrugada. Foi uma época em que conheci muita gente nova, mas também perdi.
Os caçadores estavam se revezando em grupos para ir às ruas. Tinha chegado a vez dos meus pais. Antes de saírem me deram um abraço. "Daqui a pouco estaremos de volta. Você nem vai sentir nossa falta", disseram. Eles aparentavam estar confiantes, mas eu sentia o medo deles. E eles nunca voltaram. Quando a crise acabou fizemos uma cerimônia para todos que morreram. Foi a coisa mais linda que já vi. Uma multidão trajando branco. Foi... Celestial.
Eu passei o resto do dia na biblioteca desenhando. Quando ia sair, escutei vozes no corredor. E depois passos se afastando. Esperei mais um tempo e fui para a sala. Uma menina loira estava em pé no canto.
- Quem é você? - perguntei, pressentindo que não gostaria da resposta.
- Eu sou Amy. Namorada do Caleb.
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